Sentir dor nas articulações, rigidez matinal, inchaço no joelho ou dor lombar persistente pode levantar uma dúvida comum: afinal, devo marcar consulta com um ortopedista ou com um reumatologista?

Embora a Ortopedia e a Reumatologia partilhem áreas de sobreposição clínica, a distinção fundamental reside, de forma geral, na natureza da patologia subjacente:

  • A Ortopedia foca-se sobretudo em alterações mecânicas e estruturais;
  • A Reumatologia dedica-se sobretudo a doenças inflamatórias, autoimunes ou sistémicas.

Perceber esta diferença ajuda a procurar o especialista certo e a ganhar tempo no diagnóstico e tratamento.

O papel do Ortopedista

A Ortopedia é a especialidade médica dedicada à avaliação, diagnóstico, tratamento e prevenção das patologias do sistema músculo-esquelético sob uma perspetiva estrutural e biomecânica. Engloba alterações que afetam ossos, cartilagem, meniscos, ligamentos, tendões, coluna vertebral e lesões traumáticas.

O ortopedista é frequentemente consultado nas seguintes situações:

  • Lesão após queda, torção ou impacto (entorses, fraturas, roturas ligamentares);
  • Dor associada a esforço físico, sobrecarga ou má postura;
  • Problemas mecânicos do joelho, ombro, anca, tornozelo ou coluna;
  • Sensação de bloqueio, ressalto ou instabilidade articular (ex.: joelho que “falseia”);
  • Dor bem localizada num tendão ou ligamento;
  • Necessidade de avaliar infiltrações ou eventual cirurgia.

Importa referir que nem todos os problemas ortopédicos precisam de cirurgia, muitos resolvem-se com tratamento conservador, fisioterapia e medicação adequada.

Exemplos frequentes:

  • Entorse do tornozelo;
  • Joanete;
  • Lesão meniscal;
  • Rotura do ligamento cruzado anterior;
  • Tendinite do ombro;
  • Hérnia discal de padrão mecânico;
  • Artrose avançada com limitação funcional.

O papel do Reumatologista

A Reumatologia é a especialidade médica que se dedica ao estudo das doenças que afetam articulações, músculos, ossos e tecidos conjuntivos, com particular enfoque nas patologias inflamatórias, autoimunes e sistémicas.

Entre as condições frequentemente acompanhadas por esta especialidade incluem-se:

  • Rigidez matinal prolongada (mais de 30–60 minutos);
  • Dor que também aparece em repouso ou durante a noite;
  • Articulações inchadas, quentes ou dolorosas de forma persistente;
  • Várias articulações afetadas ao mesmo tempo;
  • Fadiga inexplicável, febre baixa ou perda de peso;
  • História familiar de doença autoimune;
  • Sintomas fora das articulações (olhos vermelhos e dolorosos, aftas recorrentes, manchas na pele, diarreia crónica, dor lombar inflamatória).

Exemplos típicos incluem:

  • Artrite reumatoide;
  • Espondilite anquilosante;
  • Gota;
  • Lúpus eritematoso sistémico;
  • Fibromialgia;
  • Osteoporose.

E quando pode ser necessário consultar os dois?

Na prática, há situações em que as duas áreas se sobrepõem, tal como:

  • Artrose mecânica com crises inflamatórias;
  • Dor lombar com alterações degenerativas e suspeita de inflamação axial;
  • Tendinites repetidas em pessoas com doença inflamatória sistémica.

Nestes casos, o acompanhamento conjunto pode ser a melhor estratégia.

Por isso, quando existir dúvida, o médico de Medicina Geral e Familiar desempenha um papel essencial: avalia os sintomas, organiza o estudo diagnóstico e orienta para a especialidade mais indicada.

Como é feito o diagnóstico?

O médico baseia-se em três pilares fundamentais:

  1. História clínica detalhada
    Caracteriza o tipo de dor (mecânica ou inflamatória), a duração da rigidez, as limitações e os fatores de agravamento ou alívio
  2. Exame físico cuidadoso
  3. Exames complementares, quando necessários:
    • Radiografia;
    • Ecografia músculo-esquelética;
    • TAC ou Ressonância Magnética;
    • Análises laboratoriais (marcadores inflamatórios, ácido úrico, autoanticorpos).

Situações que justificam avaliação urgente?

Deve ser procurada avaliação médica urgente nas seguintes situações:

  • Dor intensa após traumatismo, associada a incapacidade funcional ou impossibilidade de carga;
  • Articulação marcadamente tumefacta, quente e dolorosa, acompanhada de febre (suspeita de artrite séptica);
  • Défice neurológico súbito, alteração da sensibilidade ou perda de controlo esfincteriano no contexto de dor lombar.

Em resumo

Em termos práticos, queixas compatíveis com lesão traumática, sobrecarga funcional ou degenerescência estrutural localizada orientam prioritariamente para avaliação em Ortopedia.

Por outro lado, dor persistente de características inflamatórias, rigidez matinal prolongada, envolvimento de múltiplas articulações ou presença de manifestações sistémicas sugerem avaliação em Reumatologia.

Quando subsiste dúvida diagnóstica, a Medicina Geral e Familiar constitui um ponto de entrada adequado e estruturado no sistema de saúde, assegurando uma abordagem integrada e centrada no doente

Dr. Jorge Sena

Dr. Jorge Sena

Ordem dos Médicos nº 56956

O Dr. Jorge Sena é especialista em Ortopedia e Traumatologia, com foco cirúrgico no pé e tornozelo, incluindo técnicas minimamente invasivas, na Unisana Hospitais. Possui formação complementar nacional e internacional, em medicina desportiva e acompanhamento de atletas. Além de ser autor e coautor de diversas publicações científicas.